2. A função dos “categóricos de observação” no novo “verificacionismo” de Quine

Araceli Rosich Soares Velloso – Universidade Católica de Goiás. (UCG)

aracelivelloso@uol.com.br

 

Pretendo explorar em minha apresentação uma nova noção, tardia na obra de Quine: os “categóricos de observação”. Essa nova noção foi introduzida pelo filósofo para resolver o problema da incomensurabilidade de teorias, da sua testabilidade empírica e, também, para explicar como se inicia o processo comunicacional. Contudo, o alcance dos resultados obtidos por essa nova abordagem se encontra ainda obscurecido em meio a outras soluções também experimentadas pelo filósofo, de tal forma que acreditamos ser um ganho em nossa apresentação o destaque que daremos a essa solução em detrimento das outras tentativas feitas pelo filósofo americano.

A minha hipótese de trabalho inicial é a de que Quine enfrenta muitos problemas decorrentes da sua fidelidade a certas intuições verificacionistas. Esses problemas começaram a ser delineados já na época da publicação do seu famoso artigo “Os dois dogmas do empirismo”. Sem mais opções, o cerne das preocupações do filósofo passa a ser uma busca desesperada de como viabilizar o seu holismo numa versão moderada através de uma nova noção de “confirmação”. Veremos que a estratégia de Quine diante dessas dificuldades é a de introduzir uma certa moderação nas suas duas premissas principais: a “tese de Duhem/Quine” e o verificacionismo de Peirce. Assim, na fase intermediária e final e sua obra, Quine teria passado a subscrever duas novas versões dessas antigas teses, as teses que chamamos de: a tese de D/Q restrita às frases teóricas e o novo “verificacionismo” sem dogmas. Essas duas novas versões teriam sido sustentadas por Quine através de uma revisão da relação entre “significado” e “confirmação”.

Para alcançar o seu objetivo final, o filósofo teria lançado mão, justamente, da noção de “categóricos de observação” que viria a desempenhar em sua obra o papel central de um pivô responsável pela viabilização do holismo "moderado". No entanto, para funcionarem como pivôs da estrutura semântica holista montada pelo filósofo americano, os categóricos de observação necessitam de alguns pré-requisitos. Assim, em minha apresentação destacarei o esforço importante de Quine em demonstrar que, tanto as frases de observação quando consideradas holofrasticamente, quanto o conectivo lógico condicional estariam disponíveis a um intérprete numa situação de tradução radical, ou seja, eles seriam transcendentes (i.e., eles estariam disponíveis para os falantes de qualquer língua). A transcendência desses dois elementos que irão compor os “categóricos de observação” é essencial para que os categóricos de observação possam desempenhar corretamente o seu papel.

No caso do primeiro elemento: as frases de observação consideradas holofrasticamente, essa transcendência dependerá em grande parte de uma tese que Quine chama de “tese do aspecto bipolar das frases de observação” (a tese bipolar). Essa tese, por sua vez, é superveniente a tese da inescrutabilidade da referência. Pretendemos mostrar, portanto, que, ao mostrar a inviabilidade de se dispor da estrutura predicativa do nosso discurso como instrumento de avaliação semântica e epistemológica transcendente (uma das conseqüências da tese da inescrutabilidade da referência), Quine garante o bom funcionamento da tese bipolar, o quê, por sua vez, torna viável o funcionamento dos categóricos como pivô comparativo entre duas teorias.

 

Professora da Universidade Católica de Goiás

Doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – 2004 – Filosofia da Linguagem

 

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